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O peso voltou depois da bariátrica. A caneta pode entrar no tratamento?

há 11 minutos
6 min de leitura

Mounjaro e semaglutida podem fazer parte do tratamento do reganho de peso após a cirurgia bariátrica, mas a decisão começa muito antes da escolha do medicamento.


A cirurgia bariátrica representa, para muitos pacientes, uma mudança importante na trajetória do tratamento da obesidade. Depois do procedimento, é comum observar perda expressiva de peso, melhora de doenças associadas e mudanças significativas na qualidade de vida.


Com o passar dos anos, porém, alguns pacientes percebem que a balança começa novamente a subir. É nesse momento que uma pergunta tem aparecido cada vez mais no consultório: “Fiz bariátrica e voltei a engordar. Posso usar Mounjaro ou semaglutida?”


A resposta é que esses medicamentos podem, sim, fazer parte da estratégia de tratamento em pacientes selecionados. Mas acredito que existe uma pergunta mais importante antes de decidir qual medicação usar: por que o peso voltou?


Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a forma de conduzir o caso. A obesidade é uma doença crônica, complexa e influenciada por fatores biológicos, metabólicos, comportamentais e ambientais. Fazer uma cirurgia não elimina definitivamente todos esses mecanismos. Por isso, o reganho de peso não deve ser interpretado automaticamente como falha da cirurgia, assim como também não deveria ser tratado apenas com a prescrição de uma nova medicação.


O reganho de peso depois da bariátrica não acontece da mesma forma para todos


Quando um paciente chega ao consultório dizendo que recuperou dez quilos, esse número sozinho me diz muito pouco.


É diferente recuperar alguns quilos lentamente ao longo de vários anos e depois permanecer estável de ganhar a mesma quantidade em poucos meses, com fome progressivamente maior e uma curva de peso que continua subindo. Também é diferente quando esse ganho vem acompanhado do retorno de diabetes, hipertensão, apneia do sono ou outras condições que haviam melhorado após a cirurgia.


Por isso, mais importante do que perguntar apenas “quantos quilos voltaram?” é reconstruir a trajetória.


Quando o ganho começou? A saciedade mudou? A quantidade de comida aumentou? A fome reapareceu de maneira importante? Houve mudança de rotina, redução da atividade física ou início de algum medicamento que favoreça ganho de peso? Como estão sono, alimentação, massa muscular e exames laboratoriais?


Essa avaliação permite separar situações que, à primeira vista, parecem iguais.

Dois pacientes podem ter recuperado os mesmos dez quilos e, ainda assim, precisarem de estratégias completamente diferentes.


Onde entram Mounjaro e semaglutida nessa história?


Nos últimos anos, o tratamento medicamentoso da obesidade avançou de forma importante. A semaglutida atua sobre o receptor de GLP-1, enquanto a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, atua sobre GIP e GLP-1. Entre seus efeitos estão a modulação do apetite, o aumento da saciedade e a melhora de determinados parâmetros metabólicos.

Esses mecanismos também podem ser úteis para pacientes que já realizaram cirurgia bariátrica e apresentam recorrência de peso.


Estudos recentes têm demonstrado redução adicional de peso com o uso dessas medicações em pessoas que voltaram a engordar após a cirurgia. Os resultados são promissores e ajudam a ampliar nossas possibilidades terapêuticas. Ainda assim, boa parte das evidências específicas para pacientes pós-bariátricos vem de estudos observacionais e retrospectivos, o que exige cuidado na interpretação.


Isso significa que a medicação pode ser uma ótima ferramenta, mas não existe uma porcentagem de perda de peso que possa ser prometida individualmente.


Também não considero adequado transformar a discussão em uma disputa sobre “qual caneta é mais forte”.


O medicamento que apresentou maior perda média de peso em determinado estudo não será automaticamente a melhor escolha para todas as pessoas. O tipo de cirurgia realizada, o tempo desde o procedimento, as doenças associadas, os sintomas digestivos, a tolerabilidade, a alimentação e a condição nutricional precisam entrar nessa decisão.


Existe outro ponto que não pode ser ignorado: a própria cirurgia


Quando alguém volta a ganhar peso depois da bariátrica, também precisamos lembrar que estamos avaliando uma pessoa cuja anatomia digestiva foi modificada.


Dependendo do procedimento realizado e da evolução do paciente, pode ser necessário verificar se existe alguma alteração anatômica contribuindo para o quadro.


Isso ganha ainda mais importância quando o aumento do peso aparece junto de sintomas como refluxo que piorou, vômitos recorrentes, dificuldade para engolir, dor abdominal ou mudanças importantes na quantidade de alimento necessária para atingir saciedade.

Esses sinais não significam, obrigatoriamente, que exista um problema na cirurgia. Mas significam que não deveríamos olhar apenas para a balança.


Mounjaro e semaglutida podem atuar sobre mecanismos de fome, saciedade e metabolismo. O que essas medicações não fazem é corrigir uma alteração anatômica.

Por isso, em determinados pacientes, exames como endoscopia ou outras formas de avaliação podem fazer parte da investigação clínica. Em outros, não haverá necessidade.

A decisão depende da história.


O paciente bariátrico que usa caneta precisa olhar além do peso


Outro ponto que considero especialmente importante é a qualidade do emagrecimento.

Depois da cirurgia bariátrica, o acompanhamento nutricional já merece atenção contínua. Dependendo da técnica realizada, podem ocorrer alterações na ingestão ou absorção de nutrientes, e vitaminas, minerais e proteínas precisam ser monitorados ao longo do tempo.

Quando uma medicação capaz de reduzir significativamente o apetite entra nessa história, essa atenção se torna ainda mais relevante.


Imagine um paciente que perde oito quilos depois de iniciar a medicação. O número na balança parece excelente. Mas, se junto desse peso também houve perda importante de massa muscular, queda na ingestão de proteínas ou piora de alguma deficiência nutricional, eu não consideraria esse resultado completo.


Por isso, gosto de fazer uma pergunta que vai além do peso:

Como esse paciente está emagrecendo?


O objetivo não deveria ser simplesmente voltar ao menor número já registrado depois da cirurgia. O objetivo é melhorar o controle da obesidade preservando saúde, força, funcionalidade e qualidade de vida.


Cirurgia e medicamento não precisam ser tratados como concorrentes


Durante muito tempo, cirurgia e medicamento foram tratados como caminhos opostos no tratamento da obesidade. Hoje, essa divisão faz cada vez menos sentido.


A obesidade é uma doença crônica e o tratamento pode mudar ao longo do tempo. Um paciente pode ter bons resultados com a cirurgia e, anos depois, precisar de uma medicação como complemento. Em outros casos, pode ser necessário rever alimentação, corrigir deficiências nutricionais, avaliar uma intervenção endoscópica ou discutir uma cirurgia revisional.


Isso não significa que a bariátrica falhou mas que o tratamento precisa acompanhar a evolução do paciente. Da mesma forma, ter novas medicações disponíveis não elimina a necessidade de entender por que o peso voltou. Quanto mais opções temos, mais importante se torna escolher a estratégia certa para cada caso, em vez de aplicar a mesma solução para todos.


Quando procurar avaliação?


Um erro comum é esperar o ganho de peso se tornar muito significativo antes de procurar acompanhamento novamente. Muitos pacientes voltam ao consultório apenas depois de recuperar 15, 20 ou 30 quilos. Antes disso, porém, o corpo costuma dar alguns sinais: a fome aumenta, a saciedade muda, o peso entra em trajetória ascendente ou doenças que estavam controladas começam a reaparecer.


Esse é um momento importante para reavaliar. Não significa que cada variação na balança exija tratamento medicamentoso. Significa apenas que não precisamos esperar o problema crescer para entender o que está acontecendo. Quanto mais cedo identificamos uma mudança de trajetória, mais possibilidades temos para conduzir o caso de forma organizada.


Afinal, posso usar Mounjaro ou semaglutida depois da bariátrica?


Em alguns casos, sim. Hoje, medicamentos como semaglutida e tirzepatida podem fazer parte do tratamento de pacientes que voltaram a ganhar peso após a cirurgia bariátrica.

Antes de decidir qual medicação usar, é preciso entender por que o peso voltou e o que mudou desde a cirurgia. O aumento da fome, a redução da saciedade, mudanças na alimentação, alterações metabólicas, perda de massa muscular, sintomas digestivos ou até questões relacionadas à própria anatomia da cirurgia podem fazer parte desse cenário.


E cada uma dessas situações pode levar a uma conduta diferente. Por isso, quando um paciente chega ao consultório dizendo que voltou a engordar, eu não olho apenas para quantos quilos retornaram. Quero entender como esse ganho aconteceu, em quanto tempo, como está a saúde metabólica, o estado nutricional e se existe algum outro fator que também precisa ser tratado.


É a partir dessa leitura que conseguimos decidir se uma medicação pode ajudar, qual estratégia faz mais sentido e quais cuidados precisam acompanhar o tratamento.

A cirurgia bariátrica continua sendo uma ferramenta importante no controle da obesidade, mas ela não torna a doença estática. O corpo muda, a rotina muda e, ao longo dos anos, o tratamento também pode precisar mudar.


Por isso, voltar a precisar de uma nova estratégia não significa que a bariátrica fracassou. Significa que o tratamento precisa acompanhar a evolução do paciente.




 
 
 

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